O homem sem rosto



É uma sala grande e ampla, com as paredes pintadas de preto e o chão, alcatifado, da mesma cor. De um dos lados, em cima de uma espécie de estrado de madeira, há uma cama, vestida com lençóis de seda pretos e brancos, desalinhados, entre os quais repousa um homem com quem mantive, há anos, uma relação longa e muito intensa. Ele dorme.
Na parte mais baixa da enorme sala negra, há outra cama, onde me estendo eu e, ao meu lado, um homem alto e maciço, sem ser gordo, e que não tem rosto, ou se tem eu pelo menos não consigo vê-lo. Também esta cama está feita com lençóis pretos e brancos, entretanto desalinhados, e o homem sem rosto dorme, tal como o outro. Junto a uma outra parede da sala surge o único apontamento de cor diferente neste cenário: numa mesa branca há uma taça, e lá dentro uma maçã vermelha.
Entretanto, o homem que dormia na cama em cima do estrado acorda e convida-me para dançar. Eu aceito, mas de repente, em sobressalto, começo a fugir dele. Corro pela sala de paredes pintadas de negro, que é enorme, em busca de uma porta ou de uma janela por onde possa escapar, mas não a encontro. E ele continua a perseguir-me, enquanto o homem sem rosto permanece adormecido. E eu corro, corro, corro, sem nunca ser alcançada pelo meu perseguidor, mas também sem encontrar uma forma de fugir daquela sala.
É então que acorda o segundo homem adormecido, cujo rosto se revela enfim. Constato que é o meu namorado actual. E o sonho acaba assim…

 Carla Teixeira, Porto (Porto), Portugal

Funeral do homem estátua



O meu pai tinha morrido.
E eu, bem como minhas irmãs fomos à nossa terra a fim de tratar do funeral.
Só que a cerimónia era diferente do habitual, já que as pessoas estavam todas numa praça pública, onde o "morto" era um "homem estátua" que se encontrava em cima de um pequeno estrado e tinha de cumprir um estranho ritual que consistia no facto de fazer um discurso que julgo ser de despedida, mas não sei uma vez que eu não o ouvia, apenas via o gesticular dos seus braços à medida que falava.
E o sinistro da situação era o culminar do discurso que consistia no crucial momento em que o "morto/homem estátua" parava de gesticular, baixando os braços. E aí sim, era então considerado morto de verdade, seguindo-se as formalidades próprias de um funeral desde o meter o morto num caixão até ao enterro.
É claro que a questão do "homem estátua" até percebo, dado que me encontrava de férias em Lagos, e no dia anterior tinha estado numa esplanada onde havia animação com um “homem estátua” e outras figuras.
Mas daí a meter o meu pai no assunto, já que ele tinha partido há 3 anos... é um tanto estranho.

Lulu Jasmim (pseudónimo), Vila Franca de Xira (Lisboa), Portugal

Caminhando pelo ar



Tive um daqueles sonhos que me provocou uma sensação de perplexidade que durou todo o dia: caminhava pelo ar!
Sim, elevava-me na vertical e seguia caminhando pelo ar com a mesma facilidade com que andava pelo solo.
Mas isso não foi o mais desconcertante do sono. O mais incrível é que toda a gente se surpreendia com o facto de eu poder fazê-lo, enquanto eu não conseguia entender por que razão as outras pessoas não podiam fazer o mesmo. Para mim, era algo tão simples e natural como respirar, e insistia constantemente: todos nós podemos, apenas há que querer, só há que querer!
O divertido deste sonho é que consegui-o relacionar: a noite passada estive a ler sobre as potencialidades do lóbulo frontal (essa magnífica preciosidade do cérebro humano) e fiquei fascinada com tudo o que ele nos possibilita. Quando adormeci, percebe-se que transportei essa sedução – a que me suscitou o lóbulo frontal - para o mundo onírico de forma hiperbólica.
Durante todo o dia tive presente a sensação que experimentei no sonho.

María Giráldez, Tuy (Pontevedra), Espanha

A avó de olhos azuis



Tinha cerca de 10 anos quando a minha avó materna faleceu. Apesar de ela ter vivido sempre numa aldeia próxima de Vila Real, e de só nas férias escolares de Verão ter o hábito de passar muito tempo com ela, a minha avó não fazia segredo de que eu era a sua neta preferida, e tínhamos uma ligação muito forte e especial.
Não me recordo de ter sonhado com ela nos anos imediatamente seguintes à sua morte, mas sei que quando tinha uns 16 ou 17 anos tive um sonho que me deixou a pensar, e ao qual nunca consegui dar uma interpretação lógica.
Pois se é certo que a minha avó viveu sempre em Mondim de Basto, e que poucas vezes veio ao Porto, no meu sonho ela vivia perto de minha casa e ia de autocarro visitar-me, regressando depois, também de autocarro, à casa dela, que no meu sonho (vá lá saber-se porquê…) ficava em Ermesinde, no concelho de Valongo.
Neste sonho a minha avó apareceu-me numa curva perto do início da minha rua, e tinha ao seu lado um enorme rato preto, do tamanho de um gato bem cheio! A minha avó tinha o seu sorriso, cândido e sereno, mas tinha também uma característica completamente diferente daquela que era a sua realidade: no meu sonho a minha avó tinha olhos muito azuis! O sonho consistiu apenas nisso: a minha avó, de olhos azuis, sorrindo e sem dizer palavra, numa curva do meu caminho, tendo ao lado um enorme rato preto. Recordo-me de ter acordado a transpirar, e de este sonho, e em particular os olhos azuis que a minha mente adormecida emprestou à minha avó, me terem assustado bastante…

Carla Teixeira, Porto (Porto), Portugal